21 de abr. de 2010

[Texto] Nota pública contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte DCE-USP


Nota pública contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte

Hoje, 20 de abril de 2010, era o dia marcado para o leilão da energia da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, estado do Pará. O leilão foi novamente adiado por uma liminar expedida na tarde de ontem, 19, pelo juiz federal Antonio Carlos Almeida Campelo, da subseção de Altamira (PA), que já havia concedido liminar para a suspensão do mesmo leilão no dia 8 de abril. Mas esta decisão ainda pode ser questionada na justiça.
A disputa envolvendo dois consórcios está marcada pela atuação autoritária do estado brasileiro, menosprezando o povo que vive na região da Volta Grande do Xingu. Milhares de famílias ribeirinhas, indígenas, camponesas e outras trabalhadoras da área urbana do município de Altamira terão suas vidas drasticamente alteradas caso essa obra aconteça.
Compreendendo também a posição do Brasil de grande exportador de produtos primários eletro-intensivos – que utilizam muita energia elétrica em sua produção – e o impacto dessa opção para o povo e o meio ambiente brasileiro, afirmamos que esse é um projeto que irá beneficiar apenas grandes empresas transnacionais como a mineradora Vale e Grupo Votorantim, as construtoras Andrade Gutierrez, Odebrecht, Camargo Corrêa e empresas de energia, como a Suez e a Neoenergia.
A apropriação privada da Amazônia também deve ser denunciada. A Usina de Belo Monte, além de causar danos incalculáveis à região, faz parte de um projeto de avanço desse mesmo modelo de exportação de matérias-primas eletro-intensivas que temos sido obrigados a conviver. Não por acaso a Vale e o Grupo Votorantim estão interessados nessa obra para explorar a parte do subsolo amazônico que ainda permanece preservado.
Por isso tudo, repudiamos a realização do leilão da energia de Belo Monte e nos somamos às inúmeras ações, nacionais e internacionais, que lutam contra essa hidrelétrica, projeto que coloca os interesses e o lucro de grandes grupos transnacionais acima dos interesses do povo brasileiro.
O DCE Livre da USP chama todas e todos os, estudantes, funcionários e professores da USP a tomarem conhecimento e parte nessa luta. A nossa disposição em fazer a Universidade cumprir o seu real motivo de existência é a mesma que nos mobiliza contra Belo Monte: buscar soluções para as demandas de toda a sociedade brasileira e trabalhar incessantemente para transformar o Brasil num pais justo e nosso povo soberano sobre os destinos da nação!

DCE Livre Alexandre Vannuchi Leme

[CSO] IX Graduação em Campo


Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de Antropologia 


O Núcleo de Antropologia Urbana – NAU abre inscrições para apresentação de trabalhos no evento

IX GRADUAÇÃO EM CAMPO
Seminários de Antropologia Urbana
23 a 27 de agosto de 2010
 

Período de inscrição para apresentação de trabalhosde 15 de março a 16 de abril de 2010

Edital, formulário de inscrição e mais informações disponíveis no site do NAU: www.n-a-u.org/

20 de abr. de 2010

[Texto] Nota Cimi: A descabida portaria do ministro da Justiça que determina o uso da Força Nacional de Segurança Pública para intimidar os povos indígenas, em Brasília

Nota Cimi: A descabida portaria do ministro da Justiça que determina o uso da Força Nacional de Segurança Pública para intimidar os povos indígenas, em Brasília

A Fundação Nacional do Índio foi criada em 1967 não propriamente para defender os direitos dos povos indígenas, mas para realizar a sua integração "harmoniosa e gradativa à comunhão nacional". O governo militar da época comandava com mãos pesadas e opressivas o país e exercia um rigoroso controle sobre movimentos políticos e de oposição. Os povos indígenas estavam entre os mais visados, pois suas terras encontravam-se no caminho do que vinha sendo denominado de progresso.

 Na concepção desenvolvimentista do período, os índios eram vistos como entraves ou obstáculos ao crescimento econômico e ao modelo de integração nacional que se propunha. Portanto, para eles restava apenas alternativas como a remoção, a integração ou o extermínio. Passados mais de 20 anos, desde aqueles tempos sombrios, mudanças importantes podem ser observadas, de modo especial nas maneiras como os povos indígenas se relacionam com a sociedade brasileira, bem como nas variadas iniciativas de luta pelos direitos e por adequadas políticas públicas.

Na atualidade se revigora aquele conceito de desenvolvimento e as estratégias oficiais para assegurá-lo se assemelham às que marcaram o período da ditadura militar. Tanto é assim que o próprio presidente Lula, comparou os direitos de indígenas e de quilombolas a "penduricalhos", a "entraves" que atrapalham o crescimento do país e que, como naqueles anos de autoritarismo também precisam ser removidos.

Hoje, observam-se marcas de um pensamento autoritário no modo como o governo brasileiro tem conduzido algumas negociações em torno de grandes obras projetadas no contexto de seu Programa de Aceleração do Crescimento - PAC. Os exemplos são numerosos, em especial relacionados à construção de grandes hidrelétricas, tal como as do rio Madeira e de Belo Monte, no rio Xingu, ou à expansão de áreas de monocultivo para produção de combustíveis. No caso de Belo Monte, o governo mantém de modo autoritário uma agenda de procedimentos conduzidos apressadamente, sem considerar que uma obra de tamanho impacto exige rigor, seriedade e amplo diálogo. A urgência do governo em acelerar a construção de Belo Monte nos faz indagar quais são os interesses envolvidos.

Em diferentes circunstâncias os povos indígenas são desrespeitados pelos agentes dos poderes públicos. Eles são vistos como um problema, pois os seus direitos constitucionais se contrapõem ao modelo de economia e desenvolvimento que se pretende para o Brasil, exclusivamente voltado para a exploração dos bens da natureza.

Quando os indígenas passam a dizer "alto lá", nós existimos, as leis nos garantem direitos e, portanto, mesmo que não queiram temos que ser ouvidos quanto a programas e projetos que nos afetam ou nos dizem respeito, o Estado, através de seus administradores, reage agressivamente com o intuito de abafar este grito. São inúmeros os exemplos desta postura estatal. Basta uma análise das reações dos povos indígenas contra os desmandos existentes nas políticas de assistência, de modo especial em saúde, educação e quanto à necessidade de poderem discutir a proposta de reestruturação do órgão indigenista. Em relação a isso, inclusive, a postura do Governo Federal tem estimulado uma espécie de cisão dentro do movimento indígena.

É neste contexto que o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, editou a Portaria 564/2010 que dispõe sobre o emprego da Força Nacional de Segurança Pública no Distrito Federal em apoio à Funai. De acordo com esta norma, fica autorizado o "emprego da Força Nacional de Segurança Pública (...) a fim de garantir o pleno desenvolvimento dos trabalhos no âmbito da sede da Fundação Nacional do Índio, em Brasília, bem como a incolumidade física das pessoas envolvidas na questão e do patrimônio". No seu artigo 4º, determina, ainda, que a polícia usará armas letais "à legítima defesa dos policiais e de terceiros".

Vale ressaltar que esta nova polícia foi criada pelo governo Lula através do Decreto Lei nº. 5.289/2004. Sua constitucionalidade vem sendo questionada pelo Ministério Público Federal (MPF) no Pará que, através de uma Ação Civil Pública, afirma que, em desacordo com os preceitos constitucionais, a Força Nacional de Segurança põe em risco o estado democrático de direito. O principal argumento do MPF é o de que o presidente da República não pode simplesmente instituir um órgão policial sem a participação do Congresso Nacional, o que se daria por meio de proposta de emenda constitucional. Para o procurador Fernando Aguiar, "em vez de repassar recursos para os Estados, a fim de fortalecer as polícias militares, o Governo Federal insiste em empregar a Força Nacional como polícia ostensiva federal, o que caracteriza uma inversão de papéis, já que a Constituição determina que a atividade de polícia ostensiva seja exercida pelas polícias militares".

A edição da Portaria 564/2010 indica que os povos indígenas são considerados, pelo governo Lula, um perigo à ordem pública da capital federal, uma ameaça aos funcionários da Funai e ao patrimônio da União. Nunca antes, na história do indigenismo oficial, se tomou uma medida tão severa. Vale lembrar que os generais que comandaram a nação, durante décadas, não se preocuparam em proteger a sede do órgão indigenista com uma força policial que se assemelha a um esquadrão de guerra. A "Força Nacional de Segurança" é treinada para combater o narcotráfico, o contrabando e para agir em locais de extrema violência e perigo. Seria esse o caso dos povos indígenas?

Na vigência desta nova norma, as lideranças ou representantes de povos indígenas que se dirigirem à Funai, com a expectativa de lá dialogar e reivindicar que o governo cumpra suas responsabilidades constitucionais, estão sendo recepcionados por uma polícia treinada exclusivamente para a repressão.

Na avaliação do Conselho Indigenista Missionário, a Portaria 564/2010 se caracteriza como uma medida autoritária, descabida e fora de propósito. As lideranças indígenas não colocam em risco a segurança de servidores ou do patrimônio público quando reivindicam a execução de políticas púbicas adequadas, bem como a demarcação de suas terras. Ao contrário, é o governo, pelas suas escolhas políticas e omissão, e a Funai, por sua inoperância, que contribuem com o aumento das violências praticadas contra comunidades e povos indígenas em todo o território nacional e que, portanto, coloca em risco a vida desta população.

Brasília, 19 de abril, Dia do Índio, de 2010.

Cimi - Conselho Indigenista Missionário